Editorial da Unifesp aponta caminhos para uma inteligência artificial em saúde centrada no cuidado humano

Texto assinado por Maria Elisabete Salvador, Paulo Bandiera-Paiva e Dulce Aparecida Barbosa discute como a IA pode transformar assistência, pesquisa e formação profissional sem substituir o julgamento clínico, a ética e a responsabilidade social.

A inteligência artificial (IA) já deixou de ser apenas uma ferramenta experimental e passou a ocupar espaço crescente na assistência à saúde, na pesquisa científica e na formação de profissionais. Os impactos e os limites dessa transformação são analisados no editorial O caminhar da saúde na ciência: perspectivas futuras, publicado pela revista Advances in Nursing and Health.

Assinado pela professora Maria Elisabete Salvador — a Bete — e pelo professor Paulo Bandiera-Paiva, ambos do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), e pela professora Dulce Aparecida Barbosa, do Departamento de Enfermagem Clínica e Cirúrgica (EPE/Unifesp), o texto defende que o avanço tecnológico precisa estar acompanhado de critérios éticos, transparência, equidade e compromisso com o cuidado.

O editorial mostra que a IA representa uma nova etapa na trajetória de inovação da saúde. Assim como a microscopia, os antibióticos e o sequenciamento genômico transformaram a compreensão das doenças e a prática clínica, os sistemas de IA ampliam a capacidade de integrar informações, apoiar decisões e produzir conhecimento científico. A diferença é que, além de auxiliar profissionais, essas tecnologias começam a assumir funções cada vez mais autônomas em diferentes etapas do cuidado e da pesquisa.

Entre as possibilidades destacadas estão a integração de dados clínicos, imagens, sinais fisiológicos, informações genômicas, ambientais e relacionadas ao estilo de vida. Essa combinação pode contribuir para diagnósticos mais precisos, intervenções antecipadas, prevenção de doenças, acompanhamento contínuo de pacientes e personalização do cuidado.

O texto, no entanto, alerta que a presença da IA não garante, por si só, melhores resultados. Em determinadas tarefas, como a leitura de imagens, um sistema pode apresentar desempenho superior ao de uma combinação entre profissional e algoritmo quando a recomendação correta é desconsiderada. Em outras situações, especialmente na coleta de informações durante a entrevista com o paciente, a tecnologia ainda pode ter desempenho inferior ao humano por não reconhecer adequadamente respostas incompletas ou ambíguas.

Por isso, o desafio central não é apenas criar sistemas mais avançados, mas estabelecer uma divisão deliberada de responsabilidades entre pessoas e máquinas. A questão fundamental passa a ser: quais decisões podem ser apoiadas ou automatizadas e quais devem permanecer essencialmente humanas?

Os autores também chamam atenção para as limitações estruturais que podem comprometer a segurança e a justiça dos sistemas de IA. Bases de dados pouco representativas podem reproduzir ou ampliar desigualdades já existentes na saúde, afetando de modo desproporcional grupos e populações sub-representados.

A interoperabilidade entre sistemas, a fragmentação regulatória, a sobrecarga cognitiva dos profissionais e a desconfiança em relação às novas tecnologias aparecem como obstáculos tão relevantes quanto os desafios técnicos. Soma-se a isso a opacidade de alguns modelos, cujo processo de decisão não é completamente explicável nem mesmo para seus desenvolvedores.

O editorial também coloca em debate a responsabilidade jurídica em situações nas quais uma recomendação automatizada contribui para um dano ao paciente. Nesses casos, ainda não há respostas definitivas sobre a atribuição de responsabilidade ao profissional, à instituição de saúde, ao desenvolvedor ou ao órgão regulador.

Como resposta, os autores defendem que os sistemas de IA sejam submetidos a processos rigorosos de validação e a um monitoramento contínuo após sua implementação. A proposta se aproxima do conceito de “farmacovigilância algorítmica”: acompanhar o desempenho das tecnologias ao longo do tempo, identificando falhas, mudanças no contexto de uso e possíveis efeitos adversos.

Um dos pontos centrais do editorial é a relação entre tecnologia e trabalho em saúde. A experiência com os prontuários eletrônicos é apresentada como um alerta: em vez de reduzir a carga de trabalho, a digitalização pode ampliar o tempo dedicado a tarefas administrativas.

Para os autores, a prioridade deve ser automatizar o que é administrativo — e não o que é relacional. Com processos burocráticos mais eficientes, profissionais, especialmente da enfermagem, poderiam recuperar tempo para a escuta, a comunicação, a empatia, o vínculo terapêutico e o cuidado direto.

Essa perspectiva desloca o debate sobre inovação. A tecnologia não deve ser avaliada apenas pela velocidade ou pela capacidade de processar grandes volumes de dados, mas também por sua contribuição para relações de cuidado mais qualificadas e humanizadas.

A transformação digital também exige mudanças na educação em saúde. O editorial defende que estudantes e profissionais desenvolvam competências digitais para interpretar dados, compreender limitações dos modelos e utilizar criticamente as soluções tecnológicas.

Ao mesmo tempo, o texto alerta para o risco do never-skilling — hipótese segundo a qual estudantes expostos à IA muito cedo na formação podem não desenvolver plenamente o raciocínio clínico independente necessário para uma prática segura. O fenômeno é diferente tanto da perda de habilidades de profissionais experientes quanto da incorporação acrítica de erros de um sistema.

Embora ainda não existam evidências diretas suficientes sobre o fenômeno na área da saúde, os autores defendem currículos que consolidem primeiro uma base sólida de raciocínio clínico e integrem a IA de maneira supervisionada e crítica. A formação, nesse cenário, não deve preparar apenas usuários de ferramentas, mas profissionais capazes de questionar, contextualizar e assumir a responsabilidade por suas decisões.

O editorial projeta uma expansão da chamada saúde preditiva, personalizada e distribuída. Modelos multimodais, agentes inteligentes e sensores conectados poderão acompanhar indivíduos e populações de forma contínua, reunindo diferentes tipos de dados em um mesmo processo de decisão.

Entre as aplicações potenciais estão a detecção precoce de fragilidades em pessoas idosas, o manejo de múltiplas doenças, a prevenção de quedas, o diagnóstico móvel, o uso de biossensores e a estratificação de riscos na Atenção Primária à Saúde. Soluções de baixo custo podem ampliar o acesso em regiões de menor renda, desde que sejam desenvolvidas com participação das comunidades e não aprofundem a exclusão digital.

Para isso, os autores apontam a necessidade de modelos de governança que articulem avaliação econômica, padronização de dados, colaboração multidisciplinar, validação clínica e participação social.

O texto também aborda a expansão de aplicativos e chatbots de saúde que chegam ao público sem necessariamente passar por validação clínica, supervisão de equipes de saúde ou garantias equivalentes às exigidas em serviços regulados.

Esse descompasso entre a velocidade do mercado e a capacidade de regulação pode criar riscos relacionados à segurança do paciente, à proteção de dados e à qualidade das orientações oferecidas. Para os autores, a incorporação da IA precisa acompanhar princípios de equidade, transparência e benefício coletivo.

A conclusão do editorial sintetiza sua principal mensagem: a IA pode acelerar a transformação do conhecimento em cuidado, mas não determina sozinha o resultado dessa mudança. O futuro da saúde dependerá da forma como a sociedade escolherá integrar inovação tecnológica, ética, responsabilidade social e valorização do trabalho humano.


Ficha técnica

Autor da matéria: Andréa Pereira Simões Pelogi (Departamento de Informática em Saúde (DIS) da Escola Paulista de Medicina (EPM)/Unifesp)
Revisão técnica:  Maria Elisabete Salvador e Paulo Bandiera-Paiva (Docentes do Departamento de Informática em Saúde)
Revisão institucional: Claudia Galindo Novoa (Chefe do Departamento de Informática em Saúde)
Data de Publicação: 06/10/2026
Artigo original:  "O caminhar da saúde na ciência: perspectivas futuras" - Maria Elisabete Salvador; Paulo Bandiera-Paiva; Dulce Aparecida Barbosa - Periódico: Advances in Nursing and Health

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