Desvendando a doença carotídea: uma batalha silenciosa pela saúde do cérebro
A cirurgia e o tratamento medicamentoso são aliados na prevenção do AVC, mas a escolha do melhor caminho depende de uma avaliação cuidadosa de cada paciente
O Acidente Vascular Cerebral (AVC), popularmente conhecido como derrame, é uma das principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo. Muitas vezes, o gatilho para esse evento devastador está no pescoço, mais precisamente nas artérias carótidas, os dois grandes vasos sanguíneos que levam sangue rico em oxigênio para o cérebro. Um estudo de revisão recente, que contou com a participação do Prof. João Brainer, do Departamento de Informática em Saúde da EPM/Unifesp, mergulhou na literatura científica para entender as melhores formas de tratar a doença que afeta essas artérias: a aterosclerose carotídea.
A aterosclerose é um processo lento e silencioso no qual placas de gordura, colesterol e outras substâncias, conhecidas como ateromas, se acumulam no interior das artérias. Com o tempo, essas placas podem crescer e endurecer, estreitando a passagem do sangue. Esse estreitamento é chamado de estenose. Quando ocorre nas carótidas, o fluxo sanguíneo para o cérebro pode ser reduzido. Pior ainda, um pedaço da placa pode se soltar, viajar pela corrente sanguínea e bloquear uma artéria menor no cérebro, causando um AVC isquêmico.
O artigo de revisão, intitulado "Endarterectomia de Carótida na Era do Stent e da Terapia Médica Otimizada", analisou 40 estudos publicados ao longo de quase cinco décadas para comparar as principais estratégias de tratamento disponíveis atualmente.
Existem basicamente três frentes de batalha contra a estenose carotídea:
Terapia Médica Otimizada (TMO): Considerada a base do tratamento, especialmente para pacientes que nunca tiveram sintomas. A TMO envolve o uso de medicamentos para controlar os fatores de risco, como pressão alta, colesterol elevado e diabetes. Inclui também a adoção de um estilo de vida saudável, com dieta equilibrada, prática de exercícios físicos e, fundamentalmente, o abandono do cigarro.
Endarterectomia de Carótida (CEA): Um procedimento cirúrgico tradicional e bem estabelecido. Nele, o cirurgião faz uma incisão no pescoço, abre a artéria carótida e remove fisicamente a placa de ateroma. É como uma "limpeza" da artéria para restaurar o fluxo sanguíneo normal.
Angioplastia com Stent (CAS): Uma abordagem menos invasiva. Um cateter é inserido, geralmente por uma artéria na virilha, e guiado até a carótida. Na ponta do cateter, um pequeno balão é inflado para esmagar a placa contra a parede da artéria. Em seguida, um stent (uma pequena malha de metal) é expandido no local para manter a artéria aberta.
A decisão sobre qual tratamento seguir depende crucialmente de um fator: a presença ou ausência de sintomas. Os pacientes são divididos em dois grandes grupos:
Sintomáticos: Aqueles que já sofreram um AVC ou um Ataque Isquêmico Transitório (AIT), que é um "mini-AVC" com sintomas que duram menos de 24 horas. Para esses pacientes, o risco de um novo AVC é alto.
Assintomáticos: Aqueles que têm a estenose detectada em exames de rotina, mas nunca apresentaram sintomas neurológicos.
O estudo de revisão reforça o que as diretrizes médicas internacionais recomendam. Para pacientes sintomáticos com um estreitamento grave da artéria (acima de 70%), a endarterectomia (CEA) é altamente benéfica para prevenir futuros derrames, principalmente se realizada logo após o evento inicial. Em casos selecionados com estenose moderada (50-69%), a cirurgia também pode ser uma boa opção.
Já para os pacientes assintomáticos, a história é diferente. Estudos mais recentes, como o CREST-2, mostram que a terapia médica otimizada (TMO) é extremamente eficaz. O tratamento com medicamentos e a mudança no estilo de vida conseguem, em muitos casos, controlar a doença e reduzir o risco de AVC a níveis muito baixos. Nesses casos, os procedimentos invasivos como a cirurgia ou o stent são reservados para pacientes de alto risco, muito bem selecionados, e apenas quando o risco do procedimento em si for muito baixo.