O futuro da saúde na era digital: desafios e caminhos para a formação de profissionais no SUS
Estudo com participação da professora Maria Elisabete Salvador revela que a transformação digital na saúde exige mais do que tecnologia: é preciso preparar os profissionais para lidar com os novos desafios do dia a dia.
A tecnologia está mudando a forma como cuidamos da nossa saúde. Consultas online, prontuários eletrônicos e aplicativos de acompanhamento médico já são realidade para muitos brasileiros. No entanto, a integração dessas inovações no Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta obstáculos que vão muito além da falta de computadores ou internet. Um estudo recente, que contou com a participação da professora Maria Elisabete Salvador, do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), aponta que o maior desafio atual é preparar os profissionais de saúde para essa nova realidade digital.
O artigo, intitulado "Ensino em Saúde Digital: desafios formativos a partir da escuta qualificada de profissionais e educadores", foi publicado no Journal of Health Informatics e traz um panorama detalhado sobre as dificuldades enfrentadas por quem está na linha de frente do atendimento. A pesquisa ouviu mais de mil pessoas, entre gestores, trabalhadores, professores e pesquisadores de todo o Brasil, para entender o que impede a Saúde Digital de funcionar plenamente no dia a dia dos postos de saúde e hospitais.
Quando pensamos em Saúde Digital, é comum imaginar equipamentos modernos e sistemas de última geração. Porém, o estudo mostra que a realidade nos serviços de saúde é bem diferente. Os profissionais relataram problemas básicos, como a falta de prontuários eletrônicos em muitas unidades e a necessidade de usar os próprios celulares para auxiliar no atendimento aos pacientes.
Além disso, há uma grande dificuldade em fazer com que diferentes sistemas de computador "conversem" entre si, o que os especialistas chamam de falta de interoperabilidade. Isso significa que, muitas vezes, as informações do paciente ficam espalhadas em vários lugares, dificultando o trabalho do médico ou enfermeiro.
Mas o obstáculo mais preocupante apontado pela pesquisa é o chamado "letramento digital insuficiente". Em outras palavras, muitos profissionais de saúde não receberam o treinamento adequado para usar essas novas tecnologias de forma eficiente e segura. A professora Maria Elisabete Salvador e os demais autores do estudo destacam que não basta apenas entregar a tecnologia; é fundamental ensinar como usá-la para melhorar o cuidado com o paciente. A pesquisa reforça que a transformação digital no SUS depende diretamente da qualificação contínua de quem trabalha na área.
Os participantes do estudo sugeriram que o ensino sobre Saúde Digital deve começar cedo, ainda na faculdade (graduação), e continuar ao longo de toda a carreira do profissional. Foi destacada a necessidade de criar disciplinas que integrem conhecimentos de saúde e tecnologia, preparando os futuros médicos, enfermeiros e gestores para um mundo cada vez mais conectado.
Outro ponto importante levantado foi a sobrecarga de trabalho gerada pelo excesso de dados digitais. Sem o treinamento adequado, o uso de sistemas eletrônicos pode acabar tomando mais tempo do profissional do que o próprio atendimento ao paciente. Dessa forma, a pesquisa sustenta que o ensino deve enfatizar o uso crítico das tecnologias ao longo da jornada dos dados em saúde, considerando sua aplicação nos processos de cuidado.
Outro aspecto particularmente relevante é o desenvolvimento do olhar analítico do profissional sobre o fluxo dos dados em saúde até a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). Nesse sentido, as soluções digitais não podem ser utilizadas de modo a tornar o paciente invisível ao longo desse processo. Isso compromete os encaminhamentos e a continuidade do cuidado.
Para que a Saúde Digital realmente beneficie a população, o estudo propõe algumas soluções práticas. A primeira delas é investir na formação dos professores universitários, para que eles se sintam seguros em ensinar sobre tecnologia na saúde. Além disso, é preciso criar políticas públicas que garantam internet de qualidade e equipamentos adequados em todas as regiões do país, diminuindo as desigualdades.
A pesquisa também alerta para a importância de proteger os dados dos pacientes, seguindo as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Muitos profissionais ainda desconhecem os protocolos de segurança digital, o que pode colocar em risco a privacidade das pessoas atendidas no SUS.
Em síntese, o estudo conclui que a tecnologia por si só não resolve os problemas da saúde. A verdadeira inovação acontece quando os profissionais estão preparados, as instituições oferecem o suporte necessário e as políticas públicas garantem que ninguém fique para trás. Com a contribuição de diversos especialistas, o Brasil dá mais um passo importante para construir um sistema de saúde mais moderno, eficiente e humano para todos.
Ficha Técnica
Artigo Original: Ensino em Saúde Digital: desafios formativos a partir da escuta qualificada de profis-sionais e educadores
Autores: Silvana de Lima Vieira dos Santos, Débora Dupas Gonçalves do Nascimento,Juliano de Souza Gaspar, Francisco Eduardo de Campos, Cristiana Leite Carvalho, Libini Suelen Bial da Silva Pache, Maria Elisabete Salvador Graziosi
Autor matéria: Andréa Pereira Simões Pelogi (Departamento de Informática em Saúde (DIS) da Escola Paulista de Medicina (EPM)/Unifesp).
Revisão técnica: Maria Elisabete SAlvador Graziosi (Docente do DIS/EPM).
Adaptação para divulgação científica: Andréa Pereira Simões Pelogi (Comunicação) .
Data de Publicação: 25/03/2026
Aviso: As informações apresentadas neste artigo têm caráter informativo e não substituem orientação profissional especializada. O Departamento de Informática em Saúde não se responsabiliza por eventuais erros ou interpretações incorretas do conteúdo divulgado.