Ferramenta transforma dados do Currículo Lattes em mapas de colaboração científica
Estudo mostra como a visualização de redes pode apoiar a gestão da pós-graduação
Uma ferramenta desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) transforma informações do Currículo Lattes em mapas visuais das colaborações entre cientistas. Batizado de LattesXtractor, o sistema foi criado para organizar dados sobre publicações conjuntas e permitir uma leitura mais clara das relações entre pesquisadores, grupos e programas de pós-graduação.
O trabalho é assinado por Richard William Valdivia, Rosemberg Francisco Rangel, Amanda Marta Jardim Souza, Maria Elisabete Salvador, professora do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), e Fábio Luís Falchi de Magalhães.
Publicado na revista Navus, o artigo analisou os docentes-orientadores de dez programas de pós-graduação da área de Medicina III da Unifesp. A base final reuniu 149 pesquisadores, identificados a partir de dados institucionais, da Plataforma Sucupira e dos currículos Lattes. A coleta foi realizada em 2025.
O Currículo Lattes concentra informações sobre a trajetória acadêmica e a produção científica de pesquisadores brasileiros. Consultar um currículo individual, no entanto, não permite visualizar facilmente como as pessoas se relacionam dentro de um programa ou entre diferentes áreas de pesquisa.
O LattesXtractor foi criado para enfrentar esse problema. Desenvolvido em Java, o programa lê arquivos em formato XML, reorganiza os dados e gera arquivos que podem ser analisados pelo Gephi, software especializado em redes. O resultado é uma representação gráfica em que cada pesquisador aparece como um ponto e cada publicação conjunta é representada por uma ligação entre pontos.
Essa imagem permite identificar, em poucos instantes, pesquisadores com maior número de conexões, grupos que colaboram entre si, comunidades científicas e pessoas que não aparecem ligadas a outros docentes no recorte analisado. Informações que exigiriam a comparação manual de dezenas ou centenas de currículos passam a ser observadas em um único mapa.
Os resultados mostram que 38,26% dos pesquisadores analisados tinham entre duas e cinco colaborações com outros docentes dos programas estudados. Outros 28,12% estavam na faixa de 11 a 15 relações, enquanto 8,72% tinham de seis a dez conexões.
O estudo também identificou extremos na rede. Cerca de 10,74% dos pesquisadores não apresentavam publicação conjunta com outro docente do conjunto analisado. No outro lado, 4,03% tinham entre 16 e 20 conexões.
Os autores ressaltam que esses números não devem ser lidos isoladamente. Um pesquisador sem coautoria registrada no grupo pode ter uma atuação muito especializada ou colaborar com equipes externas à área examinada. Da mesma forma, ocupar uma posição central na rede não é, por si só, sinônimo de maior desempenho acadêmico.
A análise de redes funciona como um instrumento de diagnóstico: ela mostra padrões que podem orientar perguntas e decisões, mas não substitui a avaliação qualitativa do contexto de cada programa.
Na análise conjunta da Medicina III, os pesquisadores observaram oito comunidades de colaboração. Embora alguns grupos aparecessem mais próximos internamente, a rede não era formada por blocos completamente separados: havia ligações entre as comunidades.
O resultado sugere circulação de conhecimento entre diferentes programas. Cirurgia Translacional e Tecnologia, Gestão e Saúde Ocular, por exemplo, apresentaram integrantes conectados a comunidades formadas também por pesquisadores de outros programas. Para os autores, esse tipo de integração pode favorecer a interdisciplinaridade e ampliar as possibilidades de pesquisas com aplicação prática — característica associada à chamada pesquisa translacional.
A ferramenta também pode ajudar coordenadores a localizar pesquisadores que atuam como pontes entre grupos e a identificar oportunidades para aproximar docentes que aparecem à margem da rede. A intenção não é criar um ranking de pesquisadores, mas oferecer informação para apoiar o planejamento e o fortalecimento da pós-graduação.
A avaliação dos programas de pós-graduação considera, entre outros aspectos, a produção científica e a capacidade de articulação dos grupos. Nesse cenário, mapas de colaboração podem complementar indicadores tradicionais, ao mostrar não apenas quanto se publica, mas também como o conhecimento é produzido em conjunto.
O estudo conclui que a combinação entre a extração estruturada de dados do Lattes e a análise de redes amplia a capacidade de diagnóstico dos programas. A ferramenta permite comparar diferentes configurações, acompanhar mudanças ao longo do tempo e orientar ações de incentivo à colaboração e à interdisciplinaridade.
Os autores, porém, apontam limites importantes. A análise foi restrita aos docentes-orientadores da área de Medicina III da Unifesp e, portanto, não pode ser generalizada automaticamente para outras áreas ou instituições. Além disso, os resultados dependem da atualização dos currículos pelos próprios pesquisadores. As coautorias registradas também representam apenas uma parte da colaboração científica e não capturam reuniões, orientações, projetos ou outras parcerias que não resultem em publicação conjunta.
Ainda assim, o LattesXtractor oferece um caminho para transformar uma grande quantidade de registros acadêmicos em informação visual e útil para a tomada de decisão. Ao tornar visíveis conexões, lacunas e possibilidades de aproximação, a tecnologia pode contribuir para uma gestão da ciência mais informada e estratégica.
Ficha técnica
Autor da matéria: Andréa Pereira Simões Pelogi (Departamento de Informática em Saúde (DIS) da Escola Paulista de Medicina (EPM)/Unifesp)
Artigo original: Solução tecnológica para produção e análise de uma rede de colaboração a partir de dados da Plataforma Lattes - Autores: Richard William Valdivia; Rosemberg Francisco Rangel; Amanda Marta Jardim Souza; Maria Elisabete Salvador; Fábio Luís Falchi de Magalhães
Revisão técnica: Maria Elisabete Salvador (Docente do Departamento de Informática em Saúde)
Revisão institucional: Claudia Galindo Novoa (Chefe do Departamento de Informática em Saúde)
Data de Publicação: 13/10/2026
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