Desvendando a doença carotídea: uma batalha silenciosa pela saúde do cérebro

A cirurgia e o tratamento medicamentoso são aliados na prevenção do AVC, mas a escolha do melhor caminho depende de uma avaliação cuidadosa de cada paciente

O Acidente Vascular Cerebral (AVC), popularmente conhecido como derrame, é uma das principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo. Muitas vezes, o gatilho para esse evento devastador está no pescoço, mais precisamente nas artérias carótidas, os dois grandes vasos sanguíneos que levam sangue rico em oxigênio para o cérebro. Um estudo de revisão recente, que contou com a participação do Prof. João Brainer, do Departamento de Informática em Saúde da EPM/Unifesp, mergulhou na literatura científica para entender as melhores formas de tratar a doença que afeta essas artérias: a aterosclerose carotídea.

A aterosclerose é um processo lento e silencioso no qual placas de gordura, colesterol e outras substâncias, conhecidas como ateromas, se acumulam no interior das artérias. Com o tempo, essas placas podem crescer e endurecer, estreitando a passagem do sangue. Esse estreitamento é chamado de estenose. Quando ocorre nas carótidas, o fluxo sanguíneo para o cérebro pode ser reduzido. Pior ainda, um pedaço da placa pode se soltar, viajar pela corrente sanguínea e bloquear uma artéria menor no cérebro, causando um AVC isquêmico.

O artigo de revisão, intitulado "Endarterectomia de Carótida na Era do Stent e da Terapia Médica Otimizada", analisou 40 estudos publicados ao longo de quase cinco décadas para comparar as principais estratégias de tratamento disponíveis atualmente.

Existem basicamente três frentes de batalha contra a estenose carotídea:

A decisão sobre qual tratamento seguir depende crucialmente de um fator: a presença ou ausência de sintomas. Os pacientes são divididos em dois grandes grupos:

O estudo de revisão reforça o que as diretrizes médicas internacionais recomendam. Para pacientes sintomáticos com um estreitamento grave da artéria (acima de 70%), a endarterectomia (CEA) é altamente benéfica para prevenir futuros derrames, principalmente se realizada logo após o evento inicial. Em casos selecionados com estenose moderada (50-69%), a cirurgia também pode ser uma boa opção.

Já para os pacientes assintomáticos, a história é diferente. Estudos mais recentes, como o CREST-2, mostram que a terapia médica otimizada (TMO) é extremamente eficaz. O tratamento com medicamentos e a mudança no estilo de vida conseguem, em muitos casos, controlar a doença e reduzir o risco de AVC a níveis muito baixos. Nesses casos, os procedimentos invasivos como a cirurgia ou o stent são reservados para pacientes de alto risco, muito bem selecionados, e apenas quando o risco do procedimento em si for muito baixo.